Mercadoglobal UPE Caruaru

Novembro 2, 2008

Pobreza não é Destino: O exemplo das Ilhas Maurícios

Eduardo A. Paiva de Almeida

27/outubro/2008

 

Acredito que pouca gente tenha ouvido falar das ilhas Maurícios. Trata-se de uma pequena ilha isolada no oceano Índico a 1.800km da costa oeste da África e que ficou independente da Inglaterra em 1968.

Se território é de apenas 2.040 km2 [o Recife tem aproximadamente 200 km2 e Pernambuco 98.000 km2] e sua população monta a apenas 1,3 milhões de habitantes [mais ou menos a população da cidade Recife]. Era uma ilha desabitada, quando foi “descoberta” pelos portugueses em 1507 no seu caminho para as índias. Desde então conheceu vários donos, primeiro os portugueses ,em 1507 ,sendo depois colônia dos holandeses que a batizaram com esse nome passando depois para os franceses que nas guerras napoleônicas as perdeu para os ingleses para, finalmente, se tornar um país independente em 1968.

As ilhas Maurícios é um exemplo de como um minúsculo país sem recursos naturais, importância estratégica e fora das rotas comerciais e de navegação pode sobreviver e prosperar. A revista inglesa The Economist na sua edição de 18 a 24 de outubro de 2008 trás uma matéria que [Beyond beaches and palm trees] mostra como esse pequeno país se reinventa a cada dia e prospera desmentindo o ceticismo que acompanhou a sua independência da Inglaterra 40 anos atrás.

Sua população é formada por 68% de indianos, 27% de crioulos e 2% de franceses. A atual expectativa de vida é de 70,98 anos [Brasil 72,3 anos e Pernambuco 68,3 anos],taxa de mortalidade infantil de 17,73 por 1000 habitantes [Brasil 24,9 por mil habitantes] tem um índice de alfabetização de 82,9% [Pernambuco 80%].  Esses são, com certeza, índices sociais invejáveis. Mas ela não ficou por aí. Foi classificada como o numero um em governança entre os países do continente africano [Mo Ibrahim índex]. Ocupa o 24º lugar no índice do Banco Mundial de países mais amigáveis para se fazer negócios e, ainda em relação a esse índice, é a única nação africana a se posicionar entre os 30 mais amigáveis para negócios, junto a países como França e Alemanha. Como isso foi possível?

A economia dessa pequena ilha, desde a era colonial, se baseava na produção de açúcar a partir do cultivo da cana e tinha, à época da sua independência, uma renda per capita de US$ 200,00. Hoje essa renda é de US$ 7.000,00. Vale notar que a renda per cápita do Brasil, em 2005, era de US$ 6.476,00  e a de Pernambuco, nesse mesmo ano, de tão somente US$3,304[CONDEPE/IBGE].

A primeira inserção desse país na economia mundial se deu na forma da exploração dos dois únicos recursos naturais de que dispunha: o sol e o mar. Quando da independência o pais tinha apenas um hotel e hoje eles são mais de 100 que atrai grandes correntes turísticas encantadas com as suas praias e também com a alta qualidade dos serviços nesse setor.

Dentro dos acordos de direitos de preferência nos mercados dado pelos países europeus às suas antigas colônias, o país montou, com capitais e empresas chinesas, uma grande e dinâmica indústria têxtil que se transformou numa plataforma de exportação de vestuário para a Europa. Lembro que logo que cheguei na Inglaterra para estudar, minha esposa comprou para mim, na C&A da cidade onde morávamos, um pull over fabricado nas Ilhas Maurícios e essa, confesso, foi a primeira vez que ouvi falar desse país. Com a curiosidade atiçada, pois o pull over era de lã e eu sabia que naquela ilha não se produzia lã, comecei, a partir dali, a observar as etiquetas das roupas sempre que entrava numa loja. Pude perceber, assim, a expressiva participação desse pequeno país nas prateleiras das lojas inglesas que vendiam vestuário.

Com o fim do Acordo Multifibras em 2005 e a imposição de restrições às exportações chinesas, a indústria de vestuário nas Ilhas Mauricios praticamente fechou as suas portas deixando desempregado mais de 30.000 trabalhadores. Nesse mesmo tempo a Europa também cancelou o acordo de preferência em relação ao açúcar que garantia às ex-colônias preços para esse produto, no mercado europeu, acima do mercado. Com isso, também a indústria local do açúcar sofreu um grande abalo e parecia que o país iria sucumbir.

Todavia isso não ocorreu, pois o país vinha trabalhando para se tornar um centro financeiro off shore. Hoje,desmentindo mais uma vez os céticos, a ilha abriga 19 bancos ,inclusive o HSBC, e isso foi conseqüência de todo um esforço feito nessa direção compreendendo, inclusive, tratados de bitributação ,que reduziu, de forma significativa os impostos, transformando o país numa porta para investimentos em outros países  sobretudo a Índia.

Ainda como resposta aos desafios da sobrevivência num mundo globalizado, o Governo da Ilhas Maurícios simplificou e cortou impostos como respostas às dificuldades enfrentadas pelas suas duas principais atividades econômicas. No último mês desse ano o país simplificou as suas leis trabalhistas de modo a tornar mais fácil a contratação e a demissão de trabalhadores. Isso tem transformando as Ilhas Mauricios num destino para os negócios. Por conta dessas medidas, informa a matéria publicada na The Economist, o país recebeu mais investimentos externos nos últimos três anos do que nas últimas duas décadas.

A sua parceria com a China se aprofunda. Trata-se do único país dentre cinco escolhidos na África – e o único sem petróleo e sem recursos minerais – para abrigar zonas econômicas com o objetivo de exportar para o continente africano. Por conta disso os chineses estão investindo US$ 700,0 milhões na construção de conjuntos de escritórios e em fabricas no norte da capital, Port Louise.

Claro que a ilha enfrenta problemas como qualquer país. Aponta-se que ele é frágil no que respeita as suas necessidades de alimentos e de energia e os preços das importações pode eventualmente elevar a inflação doméstica. A velha oligarquia açucareira, formada quase toda por descendentes dos antigos colonizadores franceses, conhecidos como “barões do açúcar”, ainda retém um poder desproporcional à sua importância econômica. No entanto a própria dinâmica de criação e expansão de novas atividades econômica tem reduzido de forma segura gradual esse problema.

Por tudo isso se pode perguntar qual é o segredo desse pequeno “milagre”? Como uma pequena ilha desprovida de recursos consegue fazer isso enquanto países como Somália e Etiópia, só para citar outros países africanos, com muito mais recursos, fracassaram como estados?A resposta não é fácil. Todavia o atual Primeiro Ministro da Ilhas Maurícios aponta três fatores cruciais: a alternância de poder, mediante voto democrático, a existência de um judiciário independente e, sobretudo, ao fato dos três principais partidos concordarem, em linhas gerais, com a direção a ser dada na condução do país.

Ao final da matéria o Primeiro Ministro das Ilhas Mauricios define, numa frase, o que talvez melhor explique o sucesso alcançado por esse pequeno país, formado por europeus, indianos, chineses e africanos: ”todos nós viemos parar aqui em diferentes navios, mas agora estamos todos no mesmo barco”

 

 

 

Outubro 4, 2008

Ana Paula de Miranda lança novo livro sobre consumo de moda.

Arquivado em: Uncategorized — mercadoglobal @ 1:11 am

A professora e consultora de Moda Ana Paula de Miranda lança no próximo dia 10 de outubro, a partir das 19:00h, na Saraiva MegaStore de Boa Viagem, no Recife o seu novo livro: Consumo de Moda: Relação Pessoa – Objeto, editado pela Estação das Letras e Cores.

Bacharela e Mestre em Administração e Doutora em Moda, Ana Paula é professora da Faculdade Boa Viagem e sócia da  Modus Marketing e Semiótica, uma das mais conceituadas consultorias em geração de novos negócios em moda e estilos de vida.

Leitura obrigatória para todos os que estudam e trabalham em Marketing de Moda, o livro certamente terá o mesmo sucesso dos anteriormente produzidos pela mesma autora.

Ana Paula é colaboradora do MercadoGlobal UPE Caruaru e nos sentimos orgulhosos de testemunhar o sucesso dessa pernambucana “arretada”.

Setembro 28, 2008

Semana do Blog 5.000 será comemorada com artigos dos colaboradores de maior destaque e criação de novas categorias.

Arquivado em: Uncategorized — mercadoglobal @ 5:10 am
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Na semana comemorativa dos 5.000 acessos o blog MercadoGlobal UPE Caruaru publicará a cada dia um artigo dos colaboradores cujos artigos mais contribuíram para o atingimento dessa meta, quais sejam: Ana Paula Miranda, Bento Albuquerque,  Eduardo Paiva, Emanuel Leite, Caio Anderson de Arruda Siqueira e Degles Henrique Gonçalves de Siqueira  e Isabelle Barros.

 

Além de novo visual, o blog apresentará como novidade as categorias Marketing de Moda e Administração da UPE em Pernambuco relacionada a eventos da UPE Campus Caruaru, UPE Campus Salgueiro e Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco – FCAP.

Setembro 24, 2008

Mudanças vão marcar os 5.000 acessos ao MercadoGlobal UPE Caruaru

Arquivado em: Uncategorized — mercadoglobal @ 3:14 am

A equipe responsável pelo gerenciamento do blog MercadoGlobal UPE Caruaru esta cuidando das mudanças no design, nas seções e nos conteúdos que serão implementadas quando o blog alcançar a marca de 5.000 acessos.

Criado para servir de apoio ao curso de Administração com ênfase em Marketing de Moda da UPE – Universidade de Pernambuco em Caruaru o blog tem sido acessado por interessados de todas as regiões do Brasil e referenciado pelos principais sites e blogs de moda.

Com artigos produzidos por professores e especialistas em diversas áreas, o blog também tem servido como canal de divulgação de estudos e pesquisas produzidas para professores e alunos.

Considerando o aumento consistente e constante de acessos verificado nos seus oito meses de existência, o MercadoGlobal UPE Caruaru deverá se tornar em curto espaço de tempo uma das mais importantes fontes de informações sobre o Arranjo Produtivo de Confecções do Agreste.

É oportuno lembrar que o blog compõe junto com a TV Digital UPE Caruaru e do jornal eletrônico UPE Caruaru on Line o conjunto de instrumentos de comunicação social previsto no Projeto Político-Pedagógico do Curso de Administração com ênfase em Marketing de Moda da UPE Caruaru.

Abril 30, 2008

O Preços da Gasolina e a Formação do Preçco de Venda

Arquivado em: Uncategorized — mercadoglobal @ 8:38 pm

O Preço da Gasolina e a Formação de Preços de Venda

 

O assunto da mídia parece se deslocar do caso da menina Isabella para o reajuste dos combustíveis. Essa é um assunto que realmente interessa, pois tem um impacto direto no nosso bolso.

 

Mais interessante do que o reajuste em si são os argumentos que se esgrimem para justificá-los. O principal deles é que os preços dos combustíveis  cobrado no Brasil estão defasados em relação aos preços prevalecentes no mercado internacional e assim se faria  necessário reajustá-los.

 

Confesso que, sinceramente, não entendi o argumento, pois se assim fosse o preço seria o mesmo em qualquer lugar do mundo, na Venezuela e na Arábia Saudita, que são grandes produtores de petróleo como na Suíça que não produz uma única gota sequer.

 

Num mercado onde prevalece a competição e que, portanto, não existe  nenhuma empresa dominante o preço será fixado pelas forças de oferta e demanda e,afora alguma particularidades quando as empresas procuram um diferencial para os seus produtos e assim cobrar um valor mais alto do que os seus concorrentes,nenhuma teria condições de fixar o seu preço.Usa-se dizer que nesse caso a empresa é uma price take e não um price make.

 

Essa condição, no entanto, não existe no mercado de petróleo do Brasil que é praticamente dominado pela PETROBRAS. Essa empresa é, de fato, monopolista e age como tal daí porque  tem o poder de fixar os seus preços. Essa ação e perfeitamente coerente como comportamento de uma empresa  que detém poder de mercado e busca maximizar os seus lucros.

 

Pode-se contra-argumentar que houve aumento de custos por conta da subida dos preços do óleo cru no mercado internacional. Esse fato é inegável, mas também não se pode negar que os preços pagos em dólar devem ter caídos por conta da apreciação do real nos dois últimos anos. Ao final das contas não se sabe com certeza se os preços, em dólar  que hoje se paga pela importação do óleo cru subiram e em quanto realmente subiram.

 

Há se se considerar ainda que uma parte do óleo cru que se usa no Brasil – pelo menos é isso que a PETROBRAS informa – é extraído internamente e, portanto se faria necessário saber  o quanto essa extração aumentou os seus custos – se aumentou –  em termos da moeda local. Aqui mais uma vez pode-se argumentar que sendo a PETROBRAS uma empresa internacional teria que cotar os seus preços em termos também internacionais. Afora explorações em países estrangeiros e em alguns países do quarto mundo como a Bolívia – do qual ela foi recentemente escorraçada – não me consta que a PETROBRAS venda seus produtos fora do Brasil. Não conheço refinaria da PETROBRAS na Inglaterra nem postos de gasolina dessa empresa nos Estados Unidos ou na Alemanha.

 

Podemos nos perguntar por que então devemos ter uma empresa brasileira de petróleo?. Se vamos pagar preços internacionais então deveríamos poder compra os produtos de quaisquer empresas e, logicamente iríamos comprar daqueles que nos oferecesse melhores preços. “Como dizia Alfred Marshall,célebre economista britânico do inicio do século XX,” não se pode ser patriota e popular ao mesmo tempo” .

 

Eduardo A. Paiva de Almeida

30/04/2008

Abril 26, 2008

Assalto na BR 423 : Seria cômico se não fosse trágico

Arquivado em: Administração, Uncategorized — mercadoglobal @ 3:37 am

São 5:30 da manhã do domingo, 13 de abril de 2008. No estacionamento da Faculdade de Filosofia do Recife – FAFIRE, 32 professores, homens e mulheres, todos mestres e doutores, embarcam em ônibus fretado com destino a Garanhuns para compor as bancas examinadoras da última etapa do concurso para professores promovido pela AESGA – Autarquia de Ensino Superior de Garanhuns.

Apesar de ser madrugada de um domingo, é contagiante o entusiasmo de todos. Estávamos “fazendo história”, ajudando a AESGA a regularizar-se no tocante a contratação de professores de maneira a evitar prejuízo aos seus cursos e, consequentemente, aos alunos que lá estudam. Um esforço fantástico, envolvendo dezenas de professores titulados, que se mobilizaram para esse objetivo por fatores tão conhecidos quanto esquecidos da gestão de pessoas: a amizade e o respeito ao Prof. Gildo Galindo, coordenador da empreitada e o carinho e atenção que sempre receberam da Profa. Eliane Simões, Presidente da Autarquia e de sua dedicada equipe.

Para aqueles que não são professores, é difícil entender a alegria do grupo. Afinal, a programação daquele domingo previa uma viagem de mais de três horas ate Garanhuns, a participação em sucessivas bancas de avaliação de candidatos até o final da tarde e, finalmente, o retorno ao Recife já no meio da noite.

Qual o mistério de tanto entusiasmo sabendo-se que, para muitos daqueles professores, o domingo é o único dia de descanso. O esperado dia de ficar com a família, de recuperar as energias aplicadas na preparação e realização de aulas, na correção de trabalhos ou de provas durante a semana? E justo esclarecer que para aqueles que são, verdadeiramente, professores, é gratificante e entusiasmante toda a oportunidade de exercer suas competências em ambiente em que se sintam acolhidos e prestigiados e com claros, éticos e justificados objetivos.

A longa viagem ate Garanhuns transformou-se em agradável passeio graças a qualidade da estrada, o conforto oferecido pelo ônibus e das animadas conversas. Na chegada à Garanhuns, após cordial recepção e substancial café da manhã, foram iniciadas as bancas examinadoras, um trabalho estafante, que exige atenção a cada detalhe das apresentações dos candidatos e que somente foi concluído no início da noite, encerrando com êxito o processo de seleção dos novos professores da AESGA.

Cansados, mas muito alegres pela sensação do dever cumprido, os professores despedem-se do pessoal da AESGA e retornam ao ônibus. A noite começa a escurecer a paisagem e convida a um cochilo reparador. Aqueles que não dormem formam pequenos grupos e conversam em voz baixa enquanto, suave e silenciosamente, o ônibus devora os quilômetros da BR 423 que nos leva à Caruaru. A estrada deserta e o escuro da noite nos dão um sentimento de paz e tranqüilidade até que, em algum lugar após o município de Lagedo, o ônibus é assaltado. Começa aqui a história da nossa aventura na BR 423, uma história que seria cômica se não fosse trágica:

17:45h. Um Golf vermelho ultrapassa o ônibus e a porta do porta-malas é levantada rapidamente revelando dois assaltantes armados com espingardas 12 apontadas para o motorista. Sentado na primeira fileira dos bancos percebo antes dos colegas o que esta acontecendo. Paro imediatamente a proveitosa conversa que mantinha com o Prof. Emanuel Leite e corro abaixado para o fundo do ônibus anunciando o assalto e pedindo calma aos companheiros.

O motorista do ônibus, sempre na mira das armas, estaciona sensatamente o veículo na margem da estrada deserta. O escuro da noite que nos envolve contribui para aumentar a sensação de medo e insegurança. A surpresa inicial se transformou em angustia e ela se reflete no rosto de cada um de nos. O sangue esfria e um sentimento de impotência nos acomete. A violência, uma constante das nossas estradas, acaba de saltar das páginas dos jornais e entrar nas nossas vidas.

Dois dos assaltantes, armados e encarapuzados, sobem rapidamente no ônibus, ameaçando a todos. Nada é possível fazer senão tentar manter a calma e rezar para que acabe o pesadelo. Em meio aos gritos dos assaltantes um dos colegas reage de maneira absolutamente inesperada: saca sua identidade funcional e apresenta aos dois homens:

- sou professor!

Outro, mais surpreendentemente ainda, mostra um certificado e diz:

- Esse é o certificado da banca que participei em Garanhuns…

Perplexidade total entre os assaltantes…

- Não são sulanqueiros? Pergunta espantado um deles.

-Não, somos professores, respondemos.

-Professores, dia de domingo?

-Sim, estávamos participando de bancas de avaliação em Garanhuns….

-Pô, o cara que passou o serviço se enganou. Deu a descrição errada do ônibus…não sabíamos que eram professores. A informação que tivemos é que eram sulanqueiros…agora vocês têm que ENTENDER e desculpar o INCÔMODO (sic). Começou o assalto, tem que terminar…

E fizeram o ônibus seguir na estrada, à caminho de quem sabe para onde, a mercê dos assaltantes.

- Dinheiro, relógios e celulares, rápido…documentos podem ficar!

Cautelosamente começamos a nos mexer, retirando e passando aos assaltantes o que fora pedido. Sem dinheiro em espécie, apelei para o colega do assento ao lado:

-Tô liso companheiro, tem uma grana para me emprestar para eu entregar ao assaltante?

-Claro, tenho R$ 100,00…cada um entrega R$ 50,00 a ele.

Assalto a ônibus de professores parece mudança de pobre: deixar faz pena, levar faz vergonha…Um dos assaltantes começou a recolher, visivelmente constrangido, pequenas quantidades de cédulas de R$ 50,00, de R$ 20,00, uma pobreza em relação as expectativas dos bolsos fornidos dos sulanqueiros…fomos salvos de um ridículo maior por conta de um colega que, por azar, carregava R$ 750,00…dinheiro que logo foi fazer companhia aos nossos parcos tostões…

Ao receber a minha “contribuição” o assaltante ainda falou: – Tempo duro, né professor? Não respondi. Falar o que? Estava ocupado pedindo a minha falecida mãe que reunisse todos os santos e Nossa Senhora para nos tirar daquele aperto…

E o ônibus seguia para Deus sabe onde no meio da noite. Após o trevo da BR 232, a ordem temida:

- Entra nessa estrada de terra. Eita nós, e agora?

Minutos angustiantes na estradinha que mal cabia o ônibus, sempre seguidos pelo carro dos assaltantes. A cada minuto estávamos cada vez mais longe da rodovia, de possíveis passantes e de eventual socorro…

- Para aqui ordenou o “chefe” ao motorista.

Estávamos no meio do nada e perto de coisa nenhuma…se o medo nos dominava, agora o desespero vinha lhe fazer companhia…

-Desce todo mundo e vão para frente do ônibus, vamos dar uma varrida para ver se vocês não esqueceram algum dinheiro ou celular lá dentro…a gente nunca pode confiar.

Nesse momento lembrei da minha maleta, com o laptop e o palm que estava em cima do banco…

- Foi-se, lamentei com tristeza. Que se vão os anéis desde que me deixem os dedos…

Enquanto um dos assaltantes revirava as bolsas dos colegas espalhando o conteúdo no chão, outro começava a procurar nos bancos e no piso do ônibus objetos de valor ou dinheiro possivelmente escondidos. Temia que encontrando alguma coisa agredisse a mim ou a um colega e exigisse que voltássemos ao ônibus para buscar o que tínhamos escondido. O medo ficou ainda maior e a sensação de impotência, total.

Nesse exato momento, sem razão ou motivo, surge na estradinha o farol de uma motocicleta.

-Derruba o cara ou apaga ele, disse o chefe aos parceiros.

Percebendo o que acontecia, o motoqueiro reagiu de pronto. Parou a moto e voltou rápido, desaparecendo na curva da estrada.

-Sujou!

-Vamos embora que ele pode avisar “os homê”

E se foram, esquecendo até mesmo a chave do ônibus que tinham mandado o motorista buscar…

Ficamos, na calma da noite e no escuro do mato, são e salvos, nos olhando abestados, ainda tentando entender o que nos tinha acontecido. Voltamos ao ônibus, felizes por estarmos vivos e tristes, como cidadãos, por termos vivenciado o cotidiano da violência a que estamos submetidos. De volta a BR 423 passamos no posto da Polícia Rodoviária Federal localizado não muito longe do local do assalto, prestamos o registro protocolar e retomamos, finalmente, o caminho de volta ao Recife.

Choros?…Alguns. Orações coletivas de agradecimento? Certamente. Exaustão física pela tensão? Claro. Aos poucos voltamos ao domínio de nossas vidas. Conversamos, fizemos piadas com o ocorrido. Falamos da frustração dos ladrões, do azar de assaltar professores. De todo esse angustiante acontecimento nos ficou algumas recordações marcantes:

  1. O sermos professores impactou os assaltantes. Seja por reconhecer a pindaíba da classe ou sua importância social, era visível o constrangimento deles pelo erro de nos ter escolhido;

  1. Nos mais angustiantes momentos, sentíamo-nos confortáveis por estar entre colegas. Se algo pior nos acontecesse, aconteceria em meio a uma missão de nossa escolha na vida. Naquele ônibus não estavam economistas, advogados, administradores, sociólogos, psicólogos, executivos, empresários…estavam professores, colegas, realizados e felizes em educar;

  1. Deus existe e nos O encontramos (ou um seu enviado) pilotando uma moto numa estradinha perdida no meio do mato. Atendeu com presteza aos nossos apelos, o que comprova que orações não dependem de aparelhos sofisticados ou de bateria carregada e que Deus nunca esta “fora de área” ou com a linha ocupada. Foi esse motoqueiro que nos salvou de coisa pior. Onde que esteja, seja quem for, rezaremos sempre em agradecimento pela sua providencial aparição;

  1. O Estado, no Brasil, não mais existe. Temos arrecadação recorde de impostos, politicagem rasteira, corrupção, culpados sem punição. Temos a infra-estrutura de um país: estradas, aeroportos, lindos palácios, uma máquina governamental tão vasta quanto ineficiente e perdulária. Só não temos o essencial: saúde, educação e segurança. Mas isso não afeta aos nossos dirigentes. Eles podem pagar, com o nosso dinheiro, aqui ou em qualquer lugar do mundo, educação para si e para seus filhos. Eles podem pagar, com o nosso dinheiro, aqui ou em qualquer lugar do mundo, os melhores cuidados médicos para eles e para os seus filhos. Eles pagam, com o nosso dinheiro, carros blindados e segurança nos seus deslocamentos e, certamente, nenhum deles irá, de ônibus sem escolta, num domingo, a uma cidade do interior, contribuir com o melhor de si para melhorar a qualidade da educação em nosso país.

Eita nois!

Otto Benar Farias, MSc

Professor da UPE e um dos assaltados na BR 423 em 13.04.2008

Janeiro 29, 2008

Apagão ou não apagão? eis a questão

Arquivado em: Uncategorized — mercadoglobal @ 3:23 pm

 “Apagão” é mais uma palavra incorporado ao léxico do português falado no Brasil. Criada ou popularizada durante o racionamento de energia em 2001essa palavra volta agora a freqüentar a mídia onde se discute longamente se um “apagão” irá ou não ocorrer. Os otimistas, o governo, juram e tentam convencer a todos que isso não acontecerá de nenhum  modo e que há energia suficiente para atender a demanda e à sua eventual elevação. Os pessimistas,ou realistas como se intitulam, discutem apenas quando isso acontecerá se já em 2008 ou apenas em 2009.  “Apagão” caracteriza uma situação muito peculiar e que ocorre amiúde em qualquer economia e pode ser caracterizada como um choque de oferta. E é isso que está ocorrendo com a energia. A oferta é menor do que a demanda e, portanto o preço tende a subir como já vem ocorrendo. 

A energia comercializada no mercado livre [mercado spot] segundo informações da CCEE [Câmara de Comercialização de Energia Elétrica] passou de R$ 189,25/MWh em 01 de dezembro de 2007 para R$ 569,59/MWh em 12 de janeiro de 2008. Esse mercado espelha os preços  e as suas expectativas futuras e essas simplesmente explodiram.

  Há duas, ou três, alternativas, nenhuma delas indolor, de enfrentar esse choque de oferta. Uma delas é estabelecer quota [restrição física no fornecimento]para consumo entre os diversos tipos de consumidores. Nesse caso o governo pode  definir as suas prioridades inclusive aquelas de caráter político. A Argentina, que enfrentou situação semelhante no ano de 2007, o governo, empenhado numa campanha presidencial, não permitiu que se racionasse o suprimento aos consumidores residenciais, preocupados com uma possível, e previsível, reação negativa dos eleitores. Os cortes recaíram pesadamente sobre consumidores não residenciais, particularmente o setor industrial. É possível que  o racionamento de energia aqui no Brasil em 2001 tenha contribuído para a derrota do Governo FHC na campanha presidencial de 2002. Daí talvez se explique as reações do governo e as do Presidente às perspectivas de “apagão”. A segunda forma de enfrentar esse problema é deixar os preços flutuarem e assim se ajustarem a uma nova realidade de mercado e a terceira seria uma combinação de preços mais altos com redução no fornecimento. Infelizmente a situação só pode ser resolvida com mais oferta de energia ou com menos consumo. Seja lá qual for a alternativa a ser adotada pelo governo o fato é que nós já estamos vivendo uma situação de choque de oferta,ou seja , já estamos vivendo um “apagão” e o mercado de curto prazo [mercado spot] mostra essa realidade.Os consumidores ainda não sentiram esse choque de preços por que as distribuidoras tem contrato de compra de energia firmados com preços ainda baixos. Todavia aquelas empresas que recorrem ao mercado livre, terão que pagar preços muito mais elevados e,evidentemente, os repassarão aos consumidores. Para que não haja um choque de preços alguém teria que arcar com a diferença e isso não deverá ocorrer. Assim pagar preços mais elevados é a forma de racionamento que o mercado imporá. Segundo informações publicadas no Jornal Estado de São Paulo de 13 de Janeiro de 2008 o consumo atual de gás no Brasil é de 45 milhões de m3/dia metro  sendo que 55% desse total, portanto 24,75 milhões de m3/dia destinam-se à indústria. Assim a diferença, 20,25 milhões de m3/dia se  destinam a outros fins como, por exemplo, à produção de energia elétrica e à movimentação de veículos. Informa também a edição do Jornal Estado de São Paulo que se todas as térmicas hoje existentes no país forem acionadas se produziria 10.0000 Mw  mas demandaria 50 milhões de m3/dia cúbicos.Supondo que os 20,25 milhões de m3/dia cúbicos de gás/dia ] se destinassem totalmente à  movimentação das termoelétricas haveria uma excesso de demanda de 29,25 milhões de m3/dia de gás. Não é muito difícil de concluir que o racionamento de gás é uma realidade palpável. Isso já foi ensaiado quando em fins do ano de 2007 o fornecimento de gás às indústrias do Rio de Janeiro foi interrompido. Resta assim decidir sobre quem irá recair o ônus do racionamento.                                       Eduardo A. Paiva de Almeida                                           [29/janeiro/2008]

 

Dezembro 18, 2007

Hello world!

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