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Novembro 2, 2008

Pobreza não é Destino: O exemplo das Ilhas Maurícios

Eduardo A. Paiva de Almeida

27/outubro/2008

 

Acredito que pouca gente tenha ouvido falar das ilhas Maurícios. Trata-se de uma pequena ilha isolada no oceano Índico a 1.800km da costa oeste da África e que ficou independente da Inglaterra em 1968.

Se território é de apenas 2.040 km2 [o Recife tem aproximadamente 200 km2 e Pernambuco 98.000 km2] e sua população monta a apenas 1,3 milhões de habitantes [mais ou menos a população da cidade Recife]. Era uma ilha desabitada, quando foi “descoberta” pelos portugueses em 1507 no seu caminho para as índias. Desde então conheceu vários donos, primeiro os portugueses ,em 1507 ,sendo depois colônia dos holandeses que a batizaram com esse nome passando depois para os franceses que nas guerras napoleônicas as perdeu para os ingleses para, finalmente, se tornar um país independente em 1968.

As ilhas Maurícios é um exemplo de como um minúsculo país sem recursos naturais, importância estratégica e fora das rotas comerciais e de navegação pode sobreviver e prosperar. A revista inglesa The Economist na sua edição de 18 a 24 de outubro de 2008 trás uma matéria que [Beyond beaches and palm trees] mostra como esse pequeno país se reinventa a cada dia e prospera desmentindo o ceticismo que acompanhou a sua independência da Inglaterra 40 anos atrás.

Sua população é formada por 68% de indianos, 27% de crioulos e 2% de franceses. A atual expectativa de vida é de 70,98 anos [Brasil 72,3 anos e Pernambuco 68,3 anos],taxa de mortalidade infantil de 17,73 por 1000 habitantes [Brasil 24,9 por mil habitantes] tem um índice de alfabetização de 82,9% [Pernambuco 80%].  Esses são, com certeza, índices sociais invejáveis. Mas ela não ficou por aí. Foi classificada como o numero um em governança entre os países do continente africano [Mo Ibrahim índex]. Ocupa o 24º lugar no índice do Banco Mundial de países mais amigáveis para se fazer negócios e, ainda em relação a esse índice, é a única nação africana a se posicionar entre os 30 mais amigáveis para negócios, junto a países como França e Alemanha. Como isso foi possível?

A economia dessa pequena ilha, desde a era colonial, se baseava na produção de açúcar a partir do cultivo da cana e tinha, à época da sua independência, uma renda per capita de US$ 200,00. Hoje essa renda é de US$ 7.000,00. Vale notar que a renda per cápita do Brasil, em 2005, era de US$ 6.476,00  e a de Pernambuco, nesse mesmo ano, de tão somente US$3,304[CONDEPE/IBGE].

A primeira inserção desse país na economia mundial se deu na forma da exploração dos dois únicos recursos naturais de que dispunha: o sol e o mar. Quando da independência o pais tinha apenas um hotel e hoje eles são mais de 100 que atrai grandes correntes turísticas encantadas com as suas praias e também com a alta qualidade dos serviços nesse setor.

Dentro dos acordos de direitos de preferência nos mercados dado pelos países europeus às suas antigas colônias, o país montou, com capitais e empresas chinesas, uma grande e dinâmica indústria têxtil que se transformou numa plataforma de exportação de vestuário para a Europa. Lembro que logo que cheguei na Inglaterra para estudar, minha esposa comprou para mim, na C&A da cidade onde morávamos, um pull over fabricado nas Ilhas Maurícios e essa, confesso, foi a primeira vez que ouvi falar desse país. Com a curiosidade atiçada, pois o pull over era de lã e eu sabia que naquela ilha não se produzia lã, comecei, a partir dali, a observar as etiquetas das roupas sempre que entrava numa loja. Pude perceber, assim, a expressiva participação desse pequeno país nas prateleiras das lojas inglesas que vendiam vestuário.

Com o fim do Acordo Multifibras em 2005 e a imposição de restrições às exportações chinesas, a indústria de vestuário nas Ilhas Mauricios praticamente fechou as suas portas deixando desempregado mais de 30.000 trabalhadores. Nesse mesmo tempo a Europa também cancelou o acordo de preferência em relação ao açúcar que garantia às ex-colônias preços para esse produto, no mercado europeu, acima do mercado. Com isso, também a indústria local do açúcar sofreu um grande abalo e parecia que o país iria sucumbir.

Todavia isso não ocorreu, pois o país vinha trabalhando para se tornar um centro financeiro off shore. Hoje,desmentindo mais uma vez os céticos, a ilha abriga 19 bancos ,inclusive o HSBC, e isso foi conseqüência de todo um esforço feito nessa direção compreendendo, inclusive, tratados de bitributação ,que reduziu, de forma significativa os impostos, transformando o país numa porta para investimentos em outros países  sobretudo a Índia.

Ainda como resposta aos desafios da sobrevivência num mundo globalizado, o Governo da Ilhas Maurícios simplificou e cortou impostos como respostas às dificuldades enfrentadas pelas suas duas principais atividades econômicas. No último mês desse ano o país simplificou as suas leis trabalhistas de modo a tornar mais fácil a contratação e a demissão de trabalhadores. Isso tem transformando as Ilhas Mauricios num destino para os negócios. Por conta dessas medidas, informa a matéria publicada na The Economist, o país recebeu mais investimentos externos nos últimos três anos do que nas últimas duas décadas.

A sua parceria com a China se aprofunda. Trata-se do único país dentre cinco escolhidos na África – e o único sem petróleo e sem recursos minerais – para abrigar zonas econômicas com o objetivo de exportar para o continente africano. Por conta disso os chineses estão investindo US$ 700,0 milhões na construção de conjuntos de escritórios e em fabricas no norte da capital, Port Louise.

Claro que a ilha enfrenta problemas como qualquer país. Aponta-se que ele é frágil no que respeita as suas necessidades de alimentos e de energia e os preços das importações pode eventualmente elevar a inflação doméstica. A velha oligarquia açucareira, formada quase toda por descendentes dos antigos colonizadores franceses, conhecidos como “barões do açúcar”, ainda retém um poder desproporcional à sua importância econômica. No entanto a própria dinâmica de criação e expansão de novas atividades econômica tem reduzido de forma segura gradual esse problema.

Por tudo isso se pode perguntar qual é o segredo desse pequeno “milagre”? Como uma pequena ilha desprovida de recursos consegue fazer isso enquanto países como Somália e Etiópia, só para citar outros países africanos, com muito mais recursos, fracassaram como estados?A resposta não é fácil. Todavia o atual Primeiro Ministro da Ilhas Maurícios aponta três fatores cruciais: a alternância de poder, mediante voto democrático, a existência de um judiciário independente e, sobretudo, ao fato dos três principais partidos concordarem, em linhas gerais, com a direção a ser dada na condução do país.

Ao final da matéria o Primeiro Ministro das Ilhas Mauricios define, numa frase, o que talvez melhor explique o sucesso alcançado por esse pequeno país, formado por europeus, indianos, chineses e africanos: ”todos nós viemos parar aqui em diferentes navios, mas agora estamos todos no mesmo barco”

 

 

 

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