Para onde vai o cambio?
Segundo informações veiculadas pela imprensa em 2007 o Brasil recebeu US$ 85 bilhões. Nesse montante estariam englobadas todas as modalidades de investimentos incluindo o chamado Investimento Estrangeiro Direto – IED e as aplicações de portfólio. O Investimento estrangeiro direto são os investimentos que chegam ao país para financiar operações de prazo longo englobando implantação, aquisição e fusão de empresas enquanto que aplicações de portfólio é o dinheiro estrangeiro, de curto prazo, que aqui aporta para se beneficiar de condições especificas favoráveis como bolsas de valores, títulos do governo e outras aplicações de curto prazo.
O primeiro grupo de dinheiro estrangeiro trás inquestionáveis benefícios para o país na medida em que eleva o nível de investimento da economia e em 2007 o investimento global da economia brasileira apresentou uma elevação. O investimento estrangeiro direto, freqüentemente, também trás consigo novas tecnologias, sejam de produção sejam gerenciais o que significa um benefício adicional para a economia.
As exportações brasileiras atingiram US$ 160 bilhões em 2007 e o saldo da balança comercial chegou a US$ 40 bilhões. Sem dúvida sob esses aspectos a economia brasileira foi particularmente brilhante em 2007.
Mas o que isso tem a ver com o cambio? Tudo. Claramente esse sucesso da economia significa uma grande quantidade de dólares sendo trocados por reais e, como qualquer mercadoria, quando sua produção é abundante o seu preço cai. É isso que vem acontecendo com o real.
O impacto da apreciação do real [depreciação do dólar americano] tem conseqüências sobre o nosso comércio internacional que já mostra reduções dos saldos da balança comercial em 2007.O saldo da balanço comercial da indústria de transformação em 2006 foi de US$15,7 bilhões enquanto que nos primeiros nove messes de 2007 esse mesmo saldo encolheu para apenas US$ 9,3 bilhões numa clara tendência de encolhimento.
A indústria nacional vem sofrendo uma feroz concorrência com os produtos exportados. Apenas alguns setores, dentro os quais figura o têxtil, tem conseguido manter e ampliar os seu níveis de exportação sustentando assim maior redução ocorreu precisamente no setor têxtil o que pode ser interpretado como uma perda de competitividade das nossas exportações nesse setor ou uma maior competitividade das importações ou uma combinação desses dois fenômenos.
Sabe-se que o câmbio é um dos componentes de custo no processo de exportação/ importação. Ou seja, o preço da moeda estrangeira em termos da moeda nacional [o dólar em termos de real] é um dos determinantes da rentabilidade nas operações de exportação/importação. Grosso modo quando a moeda estrangeira fica barata a importação pode se tornar uma operação rentável, acontecendo o contrário com as exportações.
É mais ou menos essa situação que estamos vivendo hoje. Todavia se pode perguntar por que então as nossas exportações não despencam? Duas explicações, não excludentes, podem ser aventadas para isso. A primeira delas seria o enorme crescimento na produtividade de certos setores da economia o que daria competitividade a esses setores mesmo numa relação de cambio desfavorável. A outra seria o particular momento vivido pela economia mundial com uma notável expansão do comercio internacional e preços excepcionais para as commodities agrícolas e minerais.
Tentar desvendar os caminhos da taxa de cambio é uma tarefa que se impõe a todos os empresários, mesmo para aqueles que não têm no mercado externo o seu alvo de negócios, pois uma taxa de câmbio depreciado poderia trazer mais importações para competir com a produção local. Uma edição do Jornal do Commercio noticiou que o pólo têxtil de Pernambuco, concentrado no triangulo formado pelas cidades de Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama, ampliou suas vendas em 12% em 2007, mas que a produção se expandira apenas 5%.
É evidente que nenhum país, nem mesmo os EUA que possuem a mais densa malha industrial do mundo, pode dispensar importações na mediada em que a produção local não cobre todas as necessidades. O Brasil não seria diferente. Todavia trata-se de uma notícia preocupante, pois pode estar sinalizando uma penetração expressiva de produtos importados facilitada, sobretudo, pela depreciação da moeda nacional que, eventualmente, poderia deslocar produção local com as suas conhecidas conseqüências.
Em assim sendo que socorro poderia os produtores locais esperar da taxa de cambio? Eu arriscaria dizer, pouco ou mesmo nenhum. No sistema de taxa de cambio flutuante o preço da moeda – a taxa de cambio – se forma na interação da oferta e da procura. Desse modo não deve haver atuação explicita do governo para sustentar uma particular taxa de cambio que pudesse trazer algum benéfico para os exportadores nacionais.
Isso nos remete a perscrutar como devem se comportar as forças que comandam a demanda e a oferta de dólares no mercado brasileiro. A grande chave para esse entendimento está no comportamento da economia americana que continua sendo o principal motor da economia mundial.
A economia americana dá sinais que não são inequívocos. Os especialistas divergem, portanto, se os EUA entrarão ou não numa recessão. A divergência,no entanto, parece residir apenas no grau uma vez que há um entendimento que a economia americana irá experimentar algum esfriamento.
Como resposta a isso o banco central americana pode patrocinar uma rodada de redução na taxa de juro [prime rate]. A redução nessa taxa tornaria as aplicações nos EUA menos rentáveis o que indicaria que o influxo de entrada no Brasil de aplicações de portfólio seria mantido ou até mesmo ampliado. E isso exerceria uma tendência de baixa da moeda brasileira.
Do lado dos investimentos estrangeiros diretos é de se esperar que o influxo seja mais ou menos mantido posto que não é muito sensível - a menos de uma grave crise global-a conjunturas de curto prazo. Esse influxo de moeda estrangeira também daria sua contribuição para manter a taxa de cambio depreciada.
Por último, mas não menos importante, está a projeção para o saldo da balança comercial. As projeções indicam um nível de exportações ao longo de 2008 aproximadamente igual ao de 2007, ainda que se tenha alguma retração na economia americana. As importações, no entanto deverão manter seu ímpeto de crescimento reduzindo, por conseqüência, o saldo da balança comercial. O resultado disso seria uma maior demanda por dólares por parte dos importadores, mas não suficiente para reverter às pressões das forças que depreciam a taxa de câmbio.
Em resumo podemos afirmar que nenhum socorro significativo virá para aqueles que de alguma forma precisariam de uma “proteção cambial”. Certamente os produtos estrangeiros e chineses, em particular, deverão continuar a sua invasão nos mercados nacionais. e a penetração nos mercados internacionais continuará sendo difícil E esse fato deixa apenas uma saída, que os empresários já conhecem; o aumento na produtividade.
Eduardo A.Paiva de Almeida
[em18/01/08]