Mercadoglobal UPE Caruaru

Janeiro 31, 2008

Quanto Vale Uma Marca?

Arquivado em: Administração, Economia, Moda — mercadoglobal @ 7:19 pm

A imprensa vem noticiando uma grande movimentação no mercado da moda. Não se trata, no entanto, de novos lançamentos e  de feiras de moda que acontece sob as luzes da imprensa especializada que tanto chama atenção, mas das aquisições de marcas [grifes] realizadas por empresas de participação e fundos de investimentos. Na revista Veja Edição n° 2045 Ano 41 nº 4 de 30 de janeiro de 2008 há uma matéria intitulada  Invasão dos Homens da Bolsa. Nela se informa que mais do que os lançamentos ocorridos na última edição da São Paulo Fashion Week encerrada  em 21 de janeiro desse ano  o que deu o que falar foi a aquisição das grifes Alexandre Herchovitich, Fause Haten e Cúmplice e das redes de lojas Clube Chocolate pelo Grupo HLDC que batizou sua holding de I’M,[Identidade Moda].Informa ainda a matéria da Veja que os controladores desse grupo já haviam adquirido em 2006  as marcas Zoomp e Zapping.  Essa movimentação no mercado da moda parece ser uma tendência, pois o Pactual Capital Partners, conforme informa a Veja acabou de formar a holding Interbrands que controla a Ellus [hoje faturando R$ 200 milhões anuais] e está associada a grife carioca Isabela Capeto com grande presença no exterior. A Artesiana Gestão de Recursos adquiriu participação majoritária na  Le Lis Blanc, rede de 31 lojas com presença nos maiores shoppings do país. O que vem ocorrendo parece ser uma tendência para uma maior profissionalização da gestão das marcadas no mercado de roupas. A gestão saí, pois das mãos dos criadores e passa para as mãos dos investidores e financistas que assim as transformariam em empresas altamente competitivas aumentando suas escalas de operação, elevando suas presenças exterior, e as preparando para captação de recursos através da abertura do seu capital. Informa a Veja que essa tendência de se montar conglomerados de marcas vem ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos desde  os fins da  década de 80. Hoje por exemplo o conglomerado francês LVMH detém mais de sessenta marcas dentre elas as tradicionais Chistian Dior e Louis Vuiton..  A atração dos investidores pela moda vem na esteira do seu crescimento. Segundo a matéria da Veja o mercado de vestuário no Brasil  em 2007 realizou vendas de R$ 28 bilhões e teve assim um crescimento de 16,5% em relação a 2006. As perspectivas desse segmento industrial seguem sendo  promissoras o que significa dizer que o apetite dos investidores devem continuar. Os valores envolvidos nas  transações são, evidentemente, sigilosos, mas como qualquer negócio requer uma avaliação e isso remete a questão de como avaliar o valor de uma marca. A marca, ou a grife como chama no mercado da moda, é, para a empresa proprietária,  um ativo como outro qualquer só que intangível. Ou seja, ela não tem uma expressão material à diferença das máquinas, equipamentos e instalações que podem ser vistos, tocados e carregados. Assim, como qualquer outro ativo ela, a marca [grife], é avaliado pela sua capacidade em gerar caixa e, afinal, é nessa capacidade que se concentra o interesse dos fundos de investimentos e das empresas de participações. O seu valor [da marca] é, portanto obtido como o  futuro fluxo liquido de caixa já deduzidos das despesas a serem incorridas para a  manutenção da sua capacidade de geração desse caixa. Quando se negocia uma empresa o que está a venda é o poder daquela empresa em gerar dinheiro para os seus donos.  Os ativos da uma empresa só são importantes para fins de avaliação de seu valor na medida em que formam a base para que a empresa gere caixa. Qualquer outro fator só será considerado para o cálculo do valor se tiver reflexos no caixa da empresa. Tenha-se em conta também que o Patrimônio Líquido, que alguns chegam a apontar como sendo um indicador do valor de uma empresa, é tão somente uma referência contábil usada para cálculo de rentabilidade do negócio. É costume ,quando se avalia pequenos negócios como, por exemplo, uma padaria que o potencial comprador junto com o vendedor se poste, por um determinado tempo, atrás da caixa registradora para avaliar o quanto de dinheiro entra   e assim determinar o valor a ser pago na transação. Na avaliação de uma marca o procedimento é rigorosamente o mesmo que se aplica a qualquer ativo. Projeta-se a capacidade que a marca, objeto da transação, tem em gerar caixa. A dificuldade para isso é a  mesma que afeta a avaliação de qualquer outro ativo, ou seja, quão segura são essas projeções. É nesse ponto que entra o concurso dos experts nos negócios específicos [de moda no caso de grifes]que deverão determinar o comportamento futuro das vendas sob aquela marca levando em conta fatores como, reputação, criatividade, capacidade de inovação, capacidade de sustentação de preços, barreiras para a entrada no mercado dentre outros. Uma vez que se tenha projetado as futuras entradas de caixa também se projeta as despesas e os investimentos que serão necessários para a geração daquele caixa projetado deduzindo-se todos os impostos incorridos. A diferença entre eles será o fluxo de caixa líquido. Como esse fluxo de caixa líquido ocorre num tempo futuro é necessário que os mesmos sejam colocados num único ponto do tempo permitindo assim a sua mensuração. A esse processo de trazer o fluxo futuro para um único ponto no tempo, se chama operação de desconto. Em geral se escolhe o tempo presente e nesse os fluxos anuais futuros, devidamente descontados, são então somados. Essa soma revela o valor do negócio ou da grife. Os livros textos sobre o assunto apontam outras formas de avaliação de negócios através de múltiplos do faturamento anual ou de comparativo com empresas semelhantes. Tais critérios são úteis apenas como uma primeira aproximação do valor de um negócio mais, dificilmente, um comprador adquire um negócio com base exclusivamente neles. Após se ter o fluxo líquido de caixa a etapa seguinte consiste na  determinação da taxa de desconto a ser aplicada para trazer o fluxo de caixa a valor presente. Essa é uma escolha delicada e difícil, pois não há uma regra para isso. O valor da taxa de desconto opõe comprador e vendedor. Interessa ao vendedor uma taxa de desconto baixa posto que isso eleva o valor da marca e o comprador tem interesse oposto, pois uma taxa menor irá produzir valor presente menor e, portanto um valor mais baixo para a marca. Compradores e vendedores concordam, todavia, que a taxa de desconto a ser utilizada deverá refletir o custo de oportunidade do capital a ser aplicado e também o risco envolvido na realização daquele fluxo de caixa projetado. Ou seja, uma maior segurança de que o fluxo de caixa se realize conforme o projetado irá requerer uma taxa menor de desconto, o oposto ocorre  quando se tem menos segurança em relação ao fluxo de caixa projetado. A dificuldade de se chegar a uma taxa de desconto que tenha a concordância de compradores e vendedores não invalida o uso do método do fluxo de caixa descontado. E o negócio só se realizaria quando houvesse consenso sobre número a usar no processo de desconto, pois aí  se teria atingido de fato o valor do negócio.  Até esse ponto se tem apenas avaliações. O verdadeiro valor de um  negócio ou de uma grife de moda de roupas é aquele pelo qual algum negócio se realiza, ou seja, quando se compra ou vende. Esse método de avaliação  - pelo fluxo de caixa  descontado – é absolutamente universal, pois se aplica tanto a uma empresa muito grande como, por exemplo, uma multinacional com operações em todo o mundo até a uma padaria de bairro. A diferença entre um e outro caso se restringe apenas à complexidade da projeção dos seus fluxos de caixa.

                   Eduardo A Paiva de Almeida

                           em 31 de janeiro de 2008

Janeiro 29, 2008

Apagão ou não apagão? eis a questão

Arquivado em: Uncategorized — mercadoglobal @ 3:23 pm

 “Apagão” é mais uma palavra incorporado ao léxico do português falado no Brasil. Criada ou popularizada durante o racionamento de energia em 2001essa palavra volta agora a freqüentar a mídia onde se discute longamente se um “apagão” irá ou não ocorrer. Os otimistas, o governo, juram e tentam convencer a todos que isso não acontecerá de nenhum  modo e que há energia suficiente para atender a demanda e à sua eventual elevação. Os pessimistas,ou realistas como se intitulam, discutem apenas quando isso acontecerá se já em 2008 ou apenas em 2009.  “Apagão” caracteriza uma situação muito peculiar e que ocorre amiúde em qualquer economia e pode ser caracterizada como um choque de oferta. E é isso que está ocorrendo com a energia. A oferta é menor do que a demanda e, portanto o preço tende a subir como já vem ocorrendo. 

A energia comercializada no mercado livre [mercado spot] segundo informações da CCEE [Câmara de Comercialização de Energia Elétrica] passou de R$ 189,25/MWh em 01 de dezembro de 2007 para R$ 569,59/MWh em 12 de janeiro de 2008. Esse mercado espelha os preços  e as suas expectativas futuras e essas simplesmente explodiram.

  Há duas, ou três, alternativas, nenhuma delas indolor, de enfrentar esse choque de oferta. Uma delas é estabelecer quota [restrição física no fornecimento]para consumo entre os diversos tipos de consumidores. Nesse caso o governo pode  definir as suas prioridades inclusive aquelas de caráter político. A Argentina, que enfrentou situação semelhante no ano de 2007, o governo, empenhado numa campanha presidencial, não permitiu que se racionasse o suprimento aos consumidores residenciais, preocupados com uma possível, e previsível, reação negativa dos eleitores. Os cortes recaíram pesadamente sobre consumidores não residenciais, particularmente o setor industrial. É possível que  o racionamento de energia aqui no Brasil em 2001 tenha contribuído para a derrota do Governo FHC na campanha presidencial de 2002. Daí talvez se explique as reações do governo e as do Presidente às perspectivas de “apagão”. A segunda forma de enfrentar esse problema é deixar os preços flutuarem e assim se ajustarem a uma nova realidade de mercado e a terceira seria uma combinação de preços mais altos com redução no fornecimento. Infelizmente a situação só pode ser resolvida com mais oferta de energia ou com menos consumo. Seja lá qual for a alternativa a ser adotada pelo governo o fato é que nós já estamos vivendo uma situação de choque de oferta,ou seja , já estamos vivendo um “apagão” e o mercado de curto prazo [mercado spot] mostra essa realidade.Os consumidores ainda não sentiram esse choque de preços por que as distribuidoras tem contrato de compra de energia firmados com preços ainda baixos. Todavia aquelas empresas que recorrem ao mercado livre, terão que pagar preços muito mais elevados e,evidentemente, os repassarão aos consumidores. Para que não haja um choque de preços alguém teria que arcar com a diferença e isso não deverá ocorrer. Assim pagar preços mais elevados é a forma de racionamento que o mercado imporá. Segundo informações publicadas no Jornal Estado de São Paulo de 13 de Janeiro de 2008 o consumo atual de gás no Brasil é de 45 milhões de m3/dia metro  sendo que 55% desse total, portanto 24,75 milhões de m3/dia destinam-se à indústria. Assim a diferença, 20,25 milhões de m3/dia se  destinam a outros fins como, por exemplo, à produção de energia elétrica e à movimentação de veículos. Informa também a edição do Jornal Estado de São Paulo que se todas as térmicas hoje existentes no país forem acionadas se produziria 10.0000 Mw  mas demandaria 50 milhões de m3/dia cúbicos.Supondo que os 20,25 milhões de m3/dia cúbicos de gás/dia ] se destinassem totalmente à  movimentação das termoelétricas haveria uma excesso de demanda de 29,25 milhões de m3/dia de gás. Não é muito difícil de concluir que o racionamento de gás é uma realidade palpável. Isso já foi ensaiado quando em fins do ano de 2007 o fornecimento de gás às indústrias do Rio de Janeiro foi interrompido. Resta assim decidir sobre quem irá recair o ônus do racionamento.                                       Eduardo A. Paiva de Almeida                                           [29/janeiro/2008]

 

Janeiro 24, 2008

Investimentos estrangeiros e comercio

Arquivado em: Economia — mercadoglobal @ 5:49 pm

Para onde vai o cambio? Segundo informações veiculadas pela imprensa em 2007 o Brasil recebeu US$ 85 bilhões. Nesse montante estariam englobadas todas as modalidades de investimentos incluindo o chamado Investimento Estrangeiro Direto – IED e as aplicações de portfólio. O Investimento estrangeiro direto são os investimentos que chegam ao país para financiar operações de prazo longo englobando implantação, aquisição e fusão de empresas enquanto que aplicações de portfólio é o dinheiro estrangeiro, de curto prazo, que aqui aporta para se beneficiar de condições especificas favoráveis como bolsas de valores, títulos do governo e outras aplicações de curto prazo. O primeiro grupo de dinheiro estrangeiro trás inquestionáveis benefícios para o país na  medida em que eleva o nível de investimento da economia  e em 2007 o investimento global da economia brasileira apresentou uma elevação. O investimento estrangeiro direto, freqüentemente, também trás consigo novas tecnologias, sejam de produção sejam gerenciais o que significa um benefício adicional para a economia. As exportações brasileiras atingiram US$ 160 bilhões em 2007 e o saldo da balança comercial chegou a US$ 40 bilhões. Sem dúvida sob esses aspectos a economia brasileira foi particularmente brilhante em 2007. Mas o que isso tem a ver com o cambio? Tudo. Claramente esse sucesso da economia significa uma grande quantidade de dólares sendo trocados por reais e, como qualquer mercadoria, quando sua produção é abundante o seu preço cai. É isso que vem acontecendo com o real. O impacto da apreciação do real [depreciação do dólar americano] tem conseqüências sobre o nosso comércio internacional que já mostra reduções dos saldos da balança comercial em 2007.O saldo da balanço comercial da indústria de transformação em 2006 foi de US$15,7 bilhões enquanto que nos primeiros nove messes de 2007 esse mesmo saldo encolheu para apenas US$ 9,3 bilhões numa clara tendência de encolhimento.   A indústria nacional vem sofrendo uma feroz concorrência com os produtos exportados. Apenas alguns setores, dentro os quais figura o têxtil, tem conseguido manter e ampliar os seu níveis de exportação sustentando assim  maior redução ocorreu precisamente  no setor têxtil o que pode ser interpretado como uma perda de competitividade das nossas exportações nesse setor ou uma maior competitividade das importações ou uma combinação desses dois fenômenos. Sabe-se que o câmbio é um dos componentes de custo no processo de exportação/ importação. Ou seja, o preço da moeda estrangeira em termos da moeda nacional [o dólar em termos de real] é um dos determinantes da rentabilidade nas operações de exportação/importação. Grosso modo quando a moeda estrangeira fica barata a importação pode se tornar uma operação rentável, acontecendo o contrário com as exportações. É mais ou menos essa situação que estamos vivendo hoje. Todavia se pode perguntar por que então as nossas exportações não despencam? Duas explicações, não excludentes, podem ser aventadas para isso. A primeira delas seria o enorme crescimento na produtividade de certos setores da economia o que daria competitividade a esses setores mesmo numa relação de cambio desfavorável. A outra seria o particular momento vivido pela economia mundial  com uma notável expansão do comercio internacional  e preços excepcionais para as commodities agrícolas e minerais. Tentar desvendar os caminhos da taxa de cambio é uma tarefa que se impõe a todos os  empresários, mesmo para aqueles que não têm no mercado externo o seu alvo de negócios, pois uma taxa de câmbio depreciado poderia trazer mais importações para competir com a produção local. Uma edição do Jornal do Commercio noticiou que o pólo têxtil de Pernambuco, concentrado no triangulo formado pelas cidades de  Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama, ampliou suas vendas em 12% em 2007, mas que a produção se expandira apenas 5%.  É evidente que nenhum país, nem mesmo os EUA que possuem a mais densa malha industrial do mundo, pode dispensar importações na mediada em que a produção local não cobre todas as necessidades. O Brasil não seria diferente. Todavia trata-se de uma notícia preocupante, pois pode estar sinalizando uma penetração expressiva de produtos importados facilitada, sobretudo, pela depreciação da moeda nacional que, eventualmente, poderia deslocar produção local com as suas conhecidas conseqüências. Em assim sendo que socorro poderia os produtores locais esperar da taxa de cambio? Eu arriscaria dizer, pouco ou mesmo nenhum. No sistema de taxa de cambio flutuante o preço da moeda – a taxa de cambio – se forma na interação da oferta e da procura. Desse modo não deve haver atuação explicita do governo para sustentar uma particular taxa de cambio que pudesse trazer algum benéfico para os exportadores nacionais. Isso nos remete a perscrutar  como devem se comportar as forças que comandam a demanda e a oferta de dólares no mercado brasileiro. A grande chave para esse entendimento  está no comportamento da economia americana que continua sendo o principal motor da economia mundial. A economia americana dá sinais que não são inequívocos. Os especialistas divergem, portanto, se os EUA entrarão ou não numa recessão. A divergência,no entanto, parece residir apenas no grau uma vez que há um entendimento que a economia americana irá experimentar algum esfriamento. Como resposta a isso o banco central americana pode patrocinar uma rodada de redução na taxa de juro [prime rate]. A redução nessa taxa tornaria as aplicações nos EUA menos rentáveis o que indicaria que o influxo de entrada no Brasil de aplicações de portfólio seria mantido ou até mesmo ampliado. E isso exerceria uma tendência de baixa da moeda brasileira. Do lado dos investimentos estrangeiros diretos é de se esperar que o influxo seja mais ou menos mantido posto que  não é muito sensível  - a menos de uma grave crise global-a conjunturas de curto prazo. Esse influxo de moeda estrangeira também daria sua contribuição para manter a  taxa de cambio depreciada. Por último, mas não menos importante, está a projeção para o saldo da balança comercial. As projeções indicam um nível de exportações ao longo de 2008 aproximadamente igual ao de 2007, ainda que se tenha alguma retração na economia americana. As importações, no entanto deverão manter seu ímpeto de crescimento reduzindo, por conseqüência, o saldo da balança comercial. O resultado disso seria uma maior demanda por dólares por parte dos importadores, mas não suficiente para reverter às pressões das forças que depreciam a taxa de  câmbio. Em resumo podemos afirmar que nenhum socorro significativo virá para aqueles que de alguma forma precisariam de uma “proteção cambial”. Certamente os produtos estrangeiros e chineses, em particular, deverão continuar a sua invasão nos mercados nacionais. e a penetração nos mercados internacionais continuará sendo difícil E esse fato deixa apenas uma saída, que os empresários já conhecem; o aumento na produtividade.                                            Eduardo A.Paiva de Almeida                                                    [em18/01/08]

Janeiro 7, 2008

Universidade do futuro

Arquivado em: Administração — mercadoglobal @ 3:05 am

Cada aluno irá à aula com seu notebook, as classes serão menores, semicirculares, e terão wi-fi, o anfiteatro desaparecerá do dia-a-dia, sendo reservado para as palestras ocasionais de grandes especialistas, e os alunos de todo o campus poderão interagir pela Internet. Depois de anos de atraso, a Espanha pisou fundo no acelerador no último ano.

Desde 1999, quando toda a União Européia assinou a Declaração de Bolonha, na qual se comprometia a estabelecer em 2010 um espaço comum europeu que fomentasse a mobilidade de alunos e professores entre países de forma a adaptar aos novos tempos o modo de ensinar e aprender nos campus, com tudo o que isso envolve, a Espanha não tinha feito quase nada até o ano passado. Em 2007 foram aprovados os mecanismos básicos para que as universidades começassem a implantar essas mudanças, e já o fizeram.

Podem-se cursar carreiras ou disciplinas online em quase todas as universidades, as classes estão sendo reformadas em alguns centros para promover o ensino mais individualizado, estão se reforçando as tutorias (que no futuro serão assessorias pessoais no escritório ou pela Internet) e começa a aparecer a semipresencialidade. Isto é, os cursos combinarão cada vez mais horas presenciais com outras de trabalho em grupo pela Internet (cada um em sua casa ou no parque) e aulas virtuais. Sempre haverá uma parte presencial, mas será muito mais participativa.

Lara María Pérez Llopis freqüenta cada vez menos os escritórios para tutorias; nove de suas 14 disciplinas de segundo ano do curso de magistério estão ativas na classe virtual de sua universidade, Jaume I de Castellón. Quando tem dúvidas, ela se conecta e envia uma consulta a seu professor: recebe a resposta em 48 horas no máximo. Três quartos de sua classe utilizam habitualmente essa ferramenta para baixar documentos, olhar as notas de uma prova ou bater papo na cafeteria virtual. Seu grupo utiliza o Google Doc quando não pode se reunir para um projeto conjunto: trabalham em rede e ao mesmo tempo, num documento compartilhado.

Mercedes Sanz, professora do departamento de Filologia e Culturas Européias na mesma universidade, manda e recebe tarefas no campus online, organiza fóruns de discussão com seus alunos e, no ano passado, orientou uma bolsista Erasmus na Alemanha à base de Internet, correio eletrônico e webcam. A jovem terminou o curso com uma nota excelente.

O presente de Mercedes e de Lara -que leva o notebook a toda parte, se conecta de casa e busca cobertura wi-fi como se fosse uma vidente- dá amostras do peso das tecnologias da informação e comunicação (TIC) na universidade do futuro, segundo explica Jordi Adell, responsável por Educação e Novas Tecnologias na Jaume I: “Haverá cada vez mais acesso às classes virtuais, aos aprendizados informais e às comunidades profissionais e científicas”. Os emissores de informação se multiplicam. As distâncias e as fronteiras se pulverizam: “Um estudante poderá cursar disciplinas em outros campus”, sem que, na opinião dos especialistas, o virtual consiga acabar com o presencial.

Exceto em tipologias muito concretas de alunato, como na Universitat Oberta de Catalunya (UOC), que é referência em aprendizado à distância na Espanha: a média de idade de seus alunos é de 30 anos, nove em cada dez trabalham e quatro em cada dez têm filhos; procuram ampliar conhecimentos em seu posto atual, promover-se em sua empresa, mudar de emprego. No curso 1995-1996 eram 200 alunos; este ano aproximam-se de 45 mil, e um quarto deles vive fora da Catalunha.

“O e-learning avançará em alguns mestrados, mas sua verdadeira explosão, embora não em curto prazo, será na formação contínua”, estima Antonio Artés, vice-reitor de pós-graduação da Universidade Carlos 3 em Madri. Nas graduações ganhará terreno um “modelo misto de formação semipresencial com aulas presenciais concentradas” e o resto online, prevê Adell.

“A Universidade Politécnica de Madri (UPM) organiza um concurso de robótica, o Cibertc. Os grupos inscritos recebem aulas sobre conceitos gerais e depois cada um cria seu projeto, sob a orientação de um professor. Concorre com outros robôs que rastreiam, jogam, evitam obstáculos. Ganha o que melhor resolver as questões que lhes forem colocadas.” Javier Uceda, reitor da Politécnica de Madri, cita esse concurso como exemplo de como se aprende fazendo, “learning by doing”, ele diz. Na opinião de Uceda, esse será o modo de fazer no futuro. E a própria estrutura física da escola mudará, para permitir uma maior interação. “As classes terão um entorno semicircular, com uma tela para se projetar imagens.” Não é que ele esteja deixando a imaginação voar, é que a UPM já iniciou essa linha de remodelações. E anuncia mais: “Será preciso organizar salas para reuniões e trabalho em grupo e individuais”. Suas bibliotecas já dispõem de um serviço de empréstimo de notebooks.

Mau sinal, a esta altura, que um campus ainda não esteja conectado à Internet. “Cem por cento das universidades públicas espanholas têm cobertura wi-fi”, afirma Sebastián Muriel, diretor-geral da Red.es, uma entidade dependente da Secretaria de Estado de Telecomunicações e da Sociedade da Informação, que promove o “Campus en Red” para favorecer o desenvolvimento de “serviços como e-learning, localização ou transmissão de voz através das redes IP (VoIP)”, segundo os objetivos do programa.

Cerca de 72% das 50 universidades participantes do estudo “As TIC no sistema universitário espanhol de 2006″, realizado pela Conferência de Reitores das Universidades Espanholas (Crue), contam com uma unidade de ensino virtual e 80% desenvolveram tecnologias educacionais de apoio aos docentes.

“Nós, economistas, não fazemos futurologia”, diz Carlos Berzosa, reitor da Universidade Complutense de Madri (UCM), quando indagado sobre a universidade do futuro. Mas o futuro já é uma realidade refletida no espelho anglo-saxão e nas diretrizes do Espaço Europeu de Educação Superior (EEES), que deverá estar totalmente implantado em 2010.

“Se dará ênfase ao aprendizado ativo, e não às anotações ditadas; haverá mais seminários e tutorias, e os grupos serão reduzidos”, cita Berzosa. Entre outras coisas, porque diminuem os matriculados. “Quando eu era decano de econômicas tínhamos 14 mil alunos; hoje são 6 mil”, compara. As classes diminuirão de tamanho e se multiplicarão em número: “Faremos como os cinemas que se transformaram em multiplex”. Mas sem que desapareça o anfiteatro ou a aula magistral “do Professor com maiúscula”, em forma de videoconferência. Berzosa e Uceda concordam que a presença dos alunos no campus se estenderá além do horário letivo.

E que carreiras estudarão? Não desaparecerá nenhuma, se forem cumpridas as previsões de Mariano Fernández Enguita, catedrático de sociologia da Universidade de Salamanca e promotor do portal Innova de educadores na rede, mas crescerão mais “aquelas que correspondem a tecnologias produtivas e sociais com uma demanda crescente, o que representa uma mudança econômica geracional: biomedicina, informática, audiovisuais, educação, políticas públicas”. Uma parte cada vez maior de sua atividade, tanto em pesquisa como em ensino, “se desenvolverá em colaboração com outras entidades públicas e privadas”.

Segundo esse catedrático, a universidade do século 21 deverá ter flexibilidade para se adaptar: em uma sociedade do conhecimento, “deixará de quase se limitar ao aprendizado inicial para se transformar em palco natural da formação permanente e em sócio habitual da formação contínua (para as empresas)”. Em uma economia do conhecimento, “haverá uma estratificação vertical, horizontal e funcional das titulações: vertical porque veremos uma relativa perda de valor do título de graduação e um papel mais determinante e diferencial das pós-graduações; horizontal porque se dará mais importância a em que universidade se obteve um título; funcional porque títulos do mesmo nível e centro terão valor de mercado muito diferente, segundo sua especialidade”. Em uma sociedade global, “se destacarão alguns títulos de reconhecimento transnacional: doutorados europeus, escolas de economia de projeção internacional, títulos coroados com bolsas no exterior, títulos de algumas universidades globais”, prevê Fernández Enguita.

“Não podemos ser bons em tudo”, afirma Josep Eladi Baños, vice-reitor de docência e ordenação acadêmica da Pompeu Fabra, que potencializou suas matérias “mais brilhantes” até se especializar em biomedicina, humanidades e ciências sociais e da comunicação. O campus de Barcelona iniciou seu processo de adaptação ao crédito europeu em 2004; desde então as atividades presenciais se reduziram em 20%, “e vão continuar diminuindo”, prevê; entre 70% e 80% de seus novos matriculados já estudam segundo os planos europeus. “Se for bem feito, representa mais trabalho para professores e alunos, mas em troca se consegue um melhor rendimento acadêmico”, explica o vice-reitor. Mas a transição “é dura”, adverte Baños.

É preciso dar uma tal virada metodológica, que Ramón Capdevilla, adjunto do conselheiro delegado do portal Universia, teme o risco de uma mudança apenas formal, sem evolução das estruturas. Uma “maquiagem”, segundo Baños. Em todo caso, o processo será lento, “de cinco a dez anos”, calcula o porta-voz da Universia, e despertará (já está despertando) reticências nas academias: “Os conhecimentos científicos e a qualidade docente continuarão valorizadas”, o “sábio”, o “grande gênio” manterá distância da aula magistral, cercando-se de uma equipe docente que atenderá mais diretamente aos alunos. Mas o embusteiro -”o que pensa: solto meu palavreado, e se ninguém conseguir falar comigo e eu tiver ensaiado bem meu papel não terei problemas”, exemplifica Capdevilla-, que hoje ainda consegue aplicar seus truques, dificilmente sobreviverá a uma tutoria ou a uma classe menor, personalizada e interativa.

Nas carteiras senta-se um aluno geralmente passivo. “Tem pouca cultura do esforço, e isso se nota particularmente em titulações que representam uma carga de trabalho apreciável”, lamenta o vice-reitor da Carlos 3. Ele defende uma mudança de mentalidade para uma maior responsabilidade e participação. Essa jovem universidade de Madri é mais ágil na hora de abordar as mudanças e dar destaque ao aprendizado. Para isso precisa de um financiamento adequado, como reivindica.

“As universidades serão mais multiculturais, democráticas e eqüitativas, mais abertas ao ambiente internacional e mais competitivas, oferecerão uma educação mais personalizada e serão mais adaptadas às novas necessidades sociais”, prevê Miguel Ángel Quintanilla, secretário de Estado de Universidades.

O reitor da UPM acrescenta duas necessidades: pelo menos seis meses de experiência internacional -”os idiomas são vitais”- e estágios em empresas. A universidade deve se orientar mais para a empresa, concordam muitos especialistas, mas sem jamais pôr-se a seu serviço. O vice-reitor da Pompeu Fabra vê o futuro como uma oportunidade de alcançar mais prestígio internacional. A Espanha é o país europeu que mais bolsas Erasmus recebe, e não só pelo sol e a cerveja, e o potencial futuro é sem dúvida a América Latina, afirma.

Janeiro 4, 2008

Feliz 2008?

Arquivado em: Economia — mercadoglobal @ 2:52 pm

                                                  

 A previsão é inerente a espécie humana. Para sobreviver foi necessário que o homem desenvolvesse uma capacidade de calcular e prever Daí surgiram os mitos e os rituais que certamente ajudavam nessa atividade. São por demais conhecidos, até por que aprendemos no curso de História que nos ensinam no colégio, como os egípcios previam as enchentes do Nilo e como isso os levavam ao cálculo das colheitas. Uma boa previsão poderia significar a diferença entre a fartura  e a fome. Essa capacidade, fundamental para a sobrevivência do homem, no que pese os avanços da ciência desde as enchentes do Nilo ainda se situa num campo nebuloso e sujeito a erros monumentais. Felizmente nos nossos dias tais erros não têm mais o poder de nos levar a situações dramáticas como aquelas que ocorriam no tempo dos faraós. O final do ano é sempre um bom momento para se avaliar o ano findo e tentar divisar o que nos espera no ano que chega. Em particular interessa o possível comportamento da economia no ano novo, pois isso permite aos agentes econômicos planejarem as suas ações e traçarem suas estratégias. Embora os números de 2007 não tenham sido fechados ainda, a economia teria crescido nesse ano algo entre 4% e 4,5% o que em termos de Brasil se configura com resultado brilhante embora abaixo do crescimento mundial médio, abaixo do crescimento médio da America Latina e  bem abaixo do crescimento da China e da Índia. Mas faltando apenas poucos dias para findar 2007 a nossa preocupação  se volta para o ano que irá começar e é aqui que entram as previsões. Essas se mostram segundo ampla opinião colhida de especialistas na imprensa, bastante otimista. Há uma convergência de opiniões de que a economia brasileira cresça algo com 5% no próximo ano o que seria um resultado excelente para um país que exibe crescimento raquítico e errático há  pelo menos 26 anos. Esse crescimento, segundo também as previsões colhidas, deverá ser impulsionado não só pelo consumo, que deverá crescer algo como 7%%, mas também pelos investimentos que deverão se expandir significativamente. Céu de brigadeiro? Nem tanto, infelizmente. Os economistas sempre colocam dúvidas nas suas próprias previsões como um seguro para futuras cobranças. Há no horizonte algumas nuvens que podem comprometer essas previsões. Um cenário externo está a indicar que dois motores da economia mundial, Estados Unidos e China, estariam sofrendo pressões de  preços.  No caso dos Estados Unidos essa pressão poderia ter como resposta uma elevação da taxa básica de juros [prime rate] com as conseqüências de esfriamento do consumo e maiores dificuldades nos mercados de débitos, sobretudo naqueles que já se mostram fragilizados como o  imobiliário [das subprime]. O enfraquecimento do dólar ao nível mundial estaria também a indicar que haveria um enxugamento do déficit comercial americano da ordem de US$ 400 bilhões nos próximos dois anos [Anatole Keletsky – Estado de São Paulo 9/12/2007]. Estados Unidos comprando menos, economia mundial crescendo menos.  Podemos perguntar como irão se comportar os outros países no próximo ano e se as suas eventuais expansões poderiam compensar uma retração dos Estados Unidos. Difícil dizer, pois o que se tem de levar nessa em conta nessa avaliação é a China e os países da zona do euro [união européia]. A China não e uma economia de mercado, embora o Brasil a tenha reconhecido como tal, e assim não responde da forma esperada a instrumentos clássicos de política monetária e cambial. A zona de influência do euro deverá ser também afetada pelo enfraquecimento do dólar com os produtos americanos ocupando espaços antes dominados pelos europeus. Segundo ainda Anatole Keletsky no citado artigo, a moeda americana praticamente não se desvalorizou diante o yen e de outras importantes moedas asiáticas, ao contrário da libra que teve uma valorização de 20% ante a moeda japonesa. Isso reforça a idéia de que  a maior parte do impacto da desvalorização do dólar será mesma sentido pelos países da área do euro. Se essa situação se configurar é possível que o Brasil não fique imune a ela, até por que o real sofreu uma expressiva valorização em relação ao dólar. Afora esse cenário externo, há também fatores internos que preocupam. A maior preocupação reside no comportamento dos preços em 2008. A última previsão é que o IPCA feche o ano  2007 em 4,39%. Pode parecer um valor pequeno, sobretudo para aqueles que durante tanto tempo conviveram com inflação dessa ordem ao dia. Mas há que se considerar, entretanto, que o IPCA de 2006 foi de apenas 3,14%, e assim houve uma elevação nada desprezível. Ademais as pressões de preços estão vindas tanto daqueles bens e serviços não importáveis [no tradeable] como dos importáveis [tradeable] a despeito da queda de preços anotadas nas importações O risco reside aqui na política que o Banco Central do Brasil iria adotar em relação a esse comportamento dos preços. Tradicionalmente o Banco Central age elevando a taxa básica de juros para fazer a inflação refluir. Há um entendimento tácito de que essa aceleração nos preços é proveniente do aquecimento da economia e, assim, o remédio clássico seria uma elevação nos juros. De todo modo a economia brasileira dá mostras de certo aquecimento  que, por um efeito de arrasto, deverá manter as atividades elevadas pelo menos durante o primeiro trimestre de 2008. Se esse cenário se configura é possível que o banco Central eleve a taxa básica de juros e o crescimento da economia será, portanto, menor do que aqueles  que se está esperando para 2008 que é entre 4,5% e 5,0%%. Para entender o comportamento do Banco Central é preciso ver que o COPOM na última reunião manteve a taxa básica de juros quebrando assim uma seqüência de reduções graduais que vinha fazendo.  O presidente  americano Truman de certa feita pediu que lhe arranjassem um economista com apenas uma mão, pois todas as vezes que solicitava  uma opinião eles [os economista] sempre terminavam dizendo “on the other hand”. Para não fugir a essa regra podemos finalizar essas previsões dizendo que o ano 2008 promete ser bom, talvez até melhor que 2007. Todavia alguns percalços poderão ocorrer e nublar essas previsões otimistas.                                                

Feliz 2008.                              

Eduardo A Paiva de Almeida

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