A imprensa vem noticiando uma grande movimentação no mercado da moda. Não se trata, no entanto, de novos lançamentos e de feiras de moda que acontece sob as luzes da imprensa especializada que tanto chama atenção, mas das aquisições de marcas [grifes] realizadas por empresas de participação e fundos de investimentos. Na revista Veja Edição n° 2045 Ano 41 nº 4 de 30 de janeiro de 2008 há uma matéria intitulada Invasão dos Homens da Bolsa. Nela se informa que mais do que os lançamentos ocorridos na última edição da São Paulo Fashion Week encerrada em 21 de janeiro desse ano o que deu o que falar foi a aquisição das grifes Alexandre Herchovitich, Fause Haten e Cúmplice e das redes de lojas Clube Chocolate pelo Grupo HLDC que batizou sua holding de I’M,[Identidade Moda].Informa ainda a matéria da Veja que os controladores desse grupo já haviam adquirido em 2006 as marcas Zoomp e Zapping. Essa movimentação no mercado da moda parece ser uma tendência, pois o Pactual Capital Partners, conforme informa a Veja acabou de formar a holding Interbrands que controla a Ellus [hoje faturando R$ 200 milhões anuais] e está associada a grife carioca Isabela Capeto com grande presença no exterior. A Artesiana Gestão de Recursos adquiriu participação majoritária na Le Lis Blanc, rede de 31 lojas com presença nos maiores shoppings do país. O que vem ocorrendo parece ser uma tendência para uma maior profissionalização da gestão das marcadas no mercado de roupas. A gestão saí, pois das mãos dos criadores e passa para as mãos dos investidores e financistas que assim as transformariam em empresas altamente competitivas aumentando suas escalas de operação, elevando suas presenças exterior, e as preparando para captação de recursos através da abertura do seu capital. Informa a Veja que essa tendência de se montar conglomerados de marcas vem ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos desde os fins da década de 80. Hoje por exemplo o conglomerado francês LVMH detém mais de sessenta marcas dentre elas as tradicionais Chistian Dior e Louis Vuiton.. A atração dos investidores pela moda vem na esteira do seu crescimento. Segundo a matéria da Veja o mercado de vestuário no Brasil em 2007 realizou vendas de R$ 28 bilhões e teve assim um crescimento de 16,5% em relação a 2006. As perspectivas desse segmento industrial seguem sendo promissoras o que significa dizer que o apetite dos investidores devem continuar. Os valores envolvidos nas transações são, evidentemente, sigilosos, mas como qualquer negócio requer uma avaliação e isso remete a questão de como avaliar o valor de uma marca. A marca, ou a grife como chama no mercado da moda, é, para a empresa proprietária, um ativo como outro qualquer só que intangível. Ou seja, ela não tem uma expressão material à diferença das máquinas, equipamentos e instalações que podem ser vistos, tocados e carregados. Assim, como qualquer outro ativo ela, a marca [grife], é avaliado pela sua capacidade em gerar caixa e, afinal, é nessa capacidade que se concentra o interesse dos fundos de investimentos e das empresas de participações. O seu valor [da marca] é, portanto obtido como o futuro fluxo liquido de caixa já deduzidos das despesas a serem incorridas para a manutenção da sua capacidade de geração desse caixa. Quando se negocia uma empresa o que está a venda é o poder daquela empresa em gerar dinheiro para os seus donos. Os ativos da uma empresa só são importantes para fins de avaliação de seu valor na medida em que formam a base para que a empresa gere caixa. Qualquer outro fator só será considerado para o cálculo do valor se tiver reflexos no caixa da empresa. Tenha-se em conta também que o Patrimônio Líquido, que alguns chegam a apontar como sendo um indicador do valor de uma empresa, é tão somente uma referência contábil usada para cálculo de rentabilidade do negócio. É costume ,quando se avalia pequenos negócios como, por exemplo, uma padaria que o potencial comprador junto com o vendedor se poste, por um determinado tempo, atrás da caixa registradora para avaliar o quanto de dinheiro entra e assim determinar o valor a ser pago na transação. Na avaliação de uma marca o procedimento é rigorosamente o mesmo que se aplica a qualquer ativo. Projeta-se a capacidade que a marca, objeto da transação, tem em gerar caixa. A dificuldade para isso é a mesma que afeta a avaliação de qualquer outro ativo, ou seja, quão segura são essas projeções. É nesse ponto que entra o concurso dos experts nos negócios específicos [de moda no caso de grifes]que deverão determinar o comportamento futuro das vendas sob aquela marca levando em conta fatores como, reputação, criatividade, capacidade de inovação, capacidade de sustentação de preços, barreiras para a entrada no mercado dentre outros. Uma vez que se tenha projetado as futuras entradas de caixa também se projeta as despesas e os investimentos que serão necessários para a geração daquele caixa projetado deduzindo-se todos os impostos incorridos. A diferença entre eles será o fluxo de caixa líquido. Como esse fluxo de caixa líquido ocorre num tempo futuro é necessário que os mesmos sejam colocados num único ponto do tempo permitindo assim a sua mensuração. A esse processo de trazer o fluxo futuro para um único ponto no tempo, se chama operação de desconto. Em geral se escolhe o tempo presente e nesse os fluxos anuais futuros, devidamente descontados, são então somados. Essa soma revela o valor do negócio ou da grife. Os livros textos sobre o assunto apontam outras formas de avaliação de negócios através de múltiplos do faturamento anual ou de comparativo com empresas semelhantes. Tais critérios são úteis apenas como uma primeira aproximação do valor de um negócio mais, dificilmente, um comprador adquire um negócio com base exclusivamente neles. Após se ter o fluxo líquido de caixa a etapa seguinte consiste na determinação da taxa de desconto a ser aplicada para trazer o fluxo de caixa a valor presente. Essa é uma escolha delicada e difícil, pois não há uma regra para isso. O valor da taxa de desconto opõe comprador e vendedor. Interessa ao vendedor uma taxa de desconto baixa posto que isso eleva o valor da marca e o comprador tem interesse oposto, pois uma taxa menor irá produzir valor presente menor e, portanto um valor mais baixo para a marca. Compradores e vendedores concordam, todavia, que a taxa de desconto a ser utilizada deverá refletir o custo de oportunidade do capital a ser aplicado e também o risco envolvido na realização daquele fluxo de caixa projetado. Ou seja, uma maior segurança de que o fluxo de caixa se realize conforme o projetado irá requerer uma taxa menor de desconto, o oposto ocorre quando se tem menos segurança em relação ao fluxo de caixa projetado. A dificuldade de se chegar a uma taxa de desconto que tenha a concordância de compradores e vendedores não invalida o uso do método do fluxo de caixa descontado. E o negócio só se realizaria quando houvesse consenso sobre número a usar no processo de desconto, pois aí se teria atingido de fato o valor do negócio. Até esse ponto se tem apenas avaliações. O verdadeiro valor de um negócio ou de uma grife de moda de roupas é aquele pelo qual algum negócio se realiza, ou seja, quando se compra ou vende. Esse método de avaliação - pelo fluxo de caixa descontado – é absolutamente universal, pois se aplica tanto a uma empresa muito grande como, por exemplo, uma multinacional com operações em todo o mundo até a uma padaria de bairro. A diferença entre um e outro caso se restringe apenas à complexidade da projeção dos seus fluxos de caixa.
Eduardo A Paiva de Almeida
em 31 de janeiro de 2008